Oitenta e nove segundos e treze faixas brancas sob uma chuva torrencial no Campo Grande. Estou encostado na parede laranja de uma lanchonete, logo na entrada. Braços cruzados. Um pé apoiado na parede, o outro no chão. Quando a contagem verde-numérica do sinalizador pára, aparece o homenzinho vermelho. Os carros passam apressados. A expectativa de vida do brasileiro é de 70, 4 anos ao nascer, segundo dados do IBGE. E durante os sessenta minutos que esperei a chuva passar, fiquei observando - através da contagem regressiva - se a minha vida duraria o percurso de um pedestre. Quem tem guarda-chuva passa a diante, quem não tem, espera secar o frio, de roupa molhada. Pois bem, chegando nos vinte e seis segundos, imaginei-me de diversas formas; geograficamente, fisicamente presente, tanto em Salvador quanto em Aracaju. Quando vi o dezenove, indo até o zero, já tinha entrado num percurso metafísico - eu como estudante do Arquidiocesano; no quarto de casa ouvindo Renato; "colando" o sobrenome Kubitshek na palma da mão, aos nove anos, pra responder uma pergunta da prova sobre um dos maiores presidentes populistas do Brasil... . Voltei! O sinal abriu novamente. Mas a chuva continuava pedindo pra eu ficar. De repente senti um cutucar na minha calça jeans, que já estava encharcada. Era uma mulher me pedindo alguns trocados. Disse que não tinha. Ela caminhou descalça até o asfalto enquanto o homenzinho vermelho estava aceso, desrespeitando-o. Olhou pro Corsa Sedan à espera de uma doação do motorista, mas ele seguiu reto, sem responder. A mulher ficou parada como uma estátua, e a vida parecia lhe pesar mais que uma Cariátide da antiga Atenas. Pronto, estiou um pouco, vou ou não vou tentar pegar metade da aula de expressão vocal II na Escola de Teatro? Não, era mero engano. A chuva apertou ainda mais, e fui obrigado a ouvir um policial fazer propaganda do carnaval da Bahia para um turista. Um carro de som, azul, com o número 13 (em vermelho sangue com contorno branco) colado à porta do motorista estava a mais ou menos dez metros de mim, parado no acostamento. A foto de Lula e Wagner, lado a lodo, cantava " é Lula de novo, com a força do povo!". Olhei pro relógio do meu Nokia, já eram 12:35 p.m., a aula já estava perdida. Agora tudo o que eu queria era ir embora, mesmo às pressas dos passinhos de três cães vira-latas que atravessavam a faixa naquele exato momento. Mas ainda tinha mais um número a ser visto: um menino de aparentemente nove anos, segurando um guarda-chuva preto, com as hastes quebradas, pisou na faixa branca aos dez segundos. E eu não sabia o que se passava em sua cabeça durante a travessia.
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