Tuesday, June 05, 2007

Epifanias da madrugada

A vida mandou me avisar pra eu caminhar logo com minhas próprias pernas, pra correr antes dos trinta e encontrar a mulher que tá por aí, solta, sem saber que vai me conhecer. Ela não sabe o que a espera. Irei matar seu romantismo de criança. Chega, tenho que dar um coice na minha estante de idéias engessadas, idéias paradas, idéias estimuladas! Quero fortificantes repletos de encontros interessantes, de acasos inteligentemente mal pensados. Quero apagar a cada dia o passado humilhado, o ritmo parado, os professores frustrados, os colegas figurantes, os amigos antagonistas, e as putas dissecadas.
Quero mandar os egos pra mãe que os pariu, pra luz que os revelaram. Luz de imagens artificiais. luz teatral. Luz sem fonte, Luz sem sol. Não é fácil se suportar dentro do próprio corpo cercado por formas estáticas. Todos querem te prender com palavras, pragas, sarcasmos e sermões de montanha. Existe alguém além de mim em cada verso deste texto, em cada visita calada, em cada briga provocada, em cada esperança esperada, em cada ar respirado, em cada lágrima suportada.
As pessoas são difíceis, eu sou um poço de complicações, que não saberiam encontrar enchente noutro barranco a não ser o drama. Arte dramática é um estado latente sentido por todos, mas alguns a revelam de verdade. E arte é uma mentira , é um conto de fadas mentiroso do qual precisamos acreditar para que a verdade humana não nos destrua. Só que em todas as casas, em todas as instituições, em todas os paraísos existe o vaidoso deus da verdade. E nós temos escalas de valores variadas desse deus. Levante a mão quem nunca persignou-se diante do próprio reflexo.
Estamos todos precipitados, sem perspectivas para algo dar certo na vida. Felicidade é pra mim, pro outro é apenas um desejo educado. Ontem me lembro de ler no quadro de boletins da minha escola: " crianças, vocês são o futuro do Brasil". Eu era o baixinho, que via o Praga e a Xuxa com pãezinhos de café da manhã dançando de um lado ao outro da tela do aparelho de tevê. Hoje sou um adulto biológico aprisionado numa alma de criança, que está perdida diante das disputas, diante das cobranças, diante das perdas, diante de tudo, que continua nada demais. A responsabilidade de trazer alguém pra este mundo é muito grande. Apesar de tudo ainda acredito no amor, na cara lavada e sem buracos escondidos.

Excremento foi feito pra expelir. E a cada dia vejo ele aprisionado no caráter das pessoas. Isso passará, "eu passarinho".

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