Wednesday, December 19, 2007

Sem o Júnior

Ano que vem completam vinte anos da morte de meu pai. Como a história de Édipo, a minha relação com meu pai, papai, o Eduardo sem o Júnior no final - não sei nem como chamá-lo, já que sempre fora uma figura ausente em minha vida - é um oráculo. Não sei qual Tirésias, qual o adivinho poderia ser capaz de me contar a história deste homem. Desde pequeno, mamãe sempre contava a versão dela da minha família paterna; e a imagem que construí deles foi embasada sob essas histórias. A cobrança da sociedade para que tenhamos um padrão de sanidade do mundo real, com o qual temos que lidar todos os dias, é como um câncer que devora o corpo auto-imune. Todas as pessoas que nascem a cada dia neste planeta não querem saber do passado, a visão sempre é pra um futuro que chega sempre atrasado. Ninguém quer chorar nossas mágoas, ninguém quer saber porque somos de tal e tal maneira, ninguém quer saber o que nos levou a ter uma personalidade. Pois bem, cresci com uma frustração que sempre me martelou a alma, o coração. Papai, como prefiro chamá-lo, foi-se muito cedo. E muitas idéias me vêm à mente agora, a minha necessidade de ser pai, de ter um filho e poder ouvir um novo nome me chamando que não seja Júnior ou Eduardo. Sou muito vulnerável a me trancar dentro do meu mundo, porque dentro do corpo de um homem que está para completar seus vinte e oito anos reside aquela criança de olhos chorosos da foto da carteira escolar de 1988. Tantos conflitos passei ao longo da minha vida que talvez mamãe nunca tenha percebido, diante da sua dura tarefa de assumir o duplo papel na formação do meu caráter, na minha criação. É por isso que tenho parado -evitado, pelo menos - de julgar as pessoas de cara, por um ato, por um gesto grosseiro, porque sei que ali dentro reside também um histórico humano que a nossa geração high-tech nega em prol do descartável mundo virtual (em se tratando de contato físico). Não quero que ninguém me entenda. Porém, não me preocupo mais em agradar os outros, em ter a necessidade de passar uma imagem sustentada na boa impressão. Como já vinha dizendo anteriormente, assumo que passo por momentos de racionalidade dos sentimentos meus para sofrer de menos. Estou vivo, num novo século, pronto para contar uma nova história. E estou abrindo mão totalmente dos egos e dos títulos para ter no meu mundo um novo serzinho que quero ver crescer e se transformar em um cidadão que possa mudar o mundo dentro do seu mundo, que seja melhor do que eu.

1 comment:

Paula Zilá said...

Du, tão curioso vc ter escrito isso nesse dia. Foi o fatídico dia do enterro de meu avô. Ele morreu no dia anterior. sabe... minha vida tá tão de "stand by" que eu nem sei. Isso aqui é como se fosse um pedaço de uma carta. Tou triste hoje, mas não todos os dias. Talvez a proximidade do meu aniversário esteja colaborando pra essa tristeza. Olha, não tive a oportunidade, mas adorei o que vc escreveu sobre mim, meu avô e seus sentimentos lindos no orkut, q, a propósito, vc deve ter visto q eu saí. Agora, que sou um ser ainda mais abstrato do que antes, mais etéreo, nos comunicamos por aqui, por e-mail ou, evenetualmente, já q não tenho o costume, por msn.
Tenho saudade da sua voz monotônica. hahahaha
Vc tá em Aracaju? Vai passar a virada aí? Sabe q cada ano me desaponto mais com toda essa expectativa de ano novo. è tudo tão sem nexo, sem sentido. Precisam de um dia, apenas um dia. E esse dia te dará toda a esperança q vc não tem, não teve. E todos os planos q vc não concretizará. pq, afinal, tudo não passa de palavras...