Como é bom fazer vinte e oito anos! Prometi a mim mesmo que não iria fazer nenhuma citação sobre a premiação do Oscar do teatro baiano. Até porque 2007 foi um ano teatralmente broskem para mim. Portanto, não tenho por que falar bem ou mal dos outros, não mostrei trabalho de verdade no último ano. Minto, fiz uma mostra independente no quarto do meu aparamento, uma cena inspirada em Navalha na Carne, com meus queridos amigos Frank e Eliana. É só perguntar pra quem viu (Heloísa Pimenta, Ana Maria, professor Diego - o italiano). Foi no dia 18 de junho de 2007, no Dois de Julho. Os vizinhos pensaram que a briga e os gritos eram de verdade, telefonaram para a síndica, exigindo a presença da polícia no 403. É assim que eu gosto, as coisas com energia de cinema.Bom, como os anônimos que me visitam por aqui já sabem, há muito tempo que sinto falta de ter uma profissão de verdade, regulamentada, respeitada. Parece que para os atores daqui tudo gira no universo espiritual, tudo é manifestação divina, nada é estudado, pensado, organicamente em corpo e espírito. Ou se é técnico e crítico demais, tendo um bom talento teórico de escrituras e teses engavetadas, tornado-se um grande professor logorréico (ao ler a palavra logorréia num livro, corri direto para o Aurélio. Achei-a interessantíssima. Passa lá também!), ou se faz "performances políticas" no palco contestando a estrutura acadêmica. Espantei-me ao assistir uma peça de formatura montada em um mês (um mês!!) em que no panfleto constava algo como: essa turma não precisa de mestres (...). Uau, estamos produzindo talentos natos em série e eu não sabia. Te cuida Haley Joel Osment, Macaulin Calkin e cia. Quando vocês cresceram, surtaram. Pode ocorrer o processo inverso com alguns.
Quando os anos vão passando, e se você se permite à desconstrução - como eu fiz durante muito tempo e continuo a fazer -, percebe que muito da crítica que se faz às pessoas e ao mundo é fruto da própria incapacidade de realizar algo. Durante esse tempo todo aqui em Salvador fui muito vulnerável ao que os outros diziam/achavam, absorvi energias esquisitas, de pessoas erradas com as quais eu me envolvi profissionalmente. Será mesmo que se pode dizer profissionalmente, já que o teatro atual daqui é endossado sob dinastias? Na escola, tem se mostrado mais "terapêutico" do que artístico. Apesar de tudo, aprendi muito com os cinco anos que passei na universidade, li como nunca, conheci pessoas bacanas, outras nem tanto; não me satisfiz com algumas (não sei se hoje é possível dizer algumas) besteiras vistas e outras das quais participei. Os tempos áureos dos grandes atores se passaram, e isso é reflexo da alienação em massa na qual vivemos. Isso sim, é um grande prêmio revelação! Pensar e falar para nós mesmos, não para os outros, incomoda. Hoje, não mais, porque não permaneci em um única possibilidade de vida. Sou chato demais pra viver de camaradagens, na indigência. Até quando os formados/graduandos daqui vão continuar achando maravilhoso ouvir da boca dos outros: Porra, você é ator? Que chique! Tenho amigo-chique! Eu, não mais. Já me aposentei. Em vinte anos, quando eu crescer, quero dizer para os meus filhos que papai é um fotógrafo que já brincou de teatro.
PS: A cor da fonte não foi sem querer. Foi querendo.
1 comment:
Revelação no calor e impulso de um incômodo, mas se é isso que se quer, é isso que se vai buscar! Abre a boca, vamos fazer nossa parte, começando de dentro! ;)
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