Me encontro numa fase repleta de possibilidades. Não sei até que ponto o meu sofrimento - no Brasil há de se ter cuidado ao usar a palavra sofrimento, porque resgata a compaixão cristã e o sentimento feio que não pode ser sentido, em virtude do estado de alegria em que nos é imposto, "estado-baía" - é sentido pelo meu defeito de percepção e entendimento do mundo. Ao longo de nossa existente e quase sempre estática jornada no planeta Terra, passeamos por tangentes matemáticas repletas de gráficos, eixos e abicissas, de diversas letras e números. Nos reprimimos em falar ou sentir alguma coisa, porque já se passou os dezoito anos e agora é exigido uma atitude madura, adulta. Não estou me queixando, ao contrário. A maturidade tem que vir o quanto antes. Mas o que me deixa angustiado mesmo é perceber o escapismo social no qual se encontra a maioria das relações humanas. Pensar é feio, é coisa de intelectual metido. Ler livro? Que nada, é para fazer prova. Escrever correto? Não, é caretice de português. Digamos, abertamente, e sem hipocrisia: há vida inteligente no Brasil? Nas ruas, nas caixas metálicas de nossos quartos e salas? O que representa, hoje , a vinda de um ser para esta bola, azul e flutuante, repleta de continentes e crenças variadas? Será apenas narcisismo nosso, pra falarmos aos amigos: "olha como ele/ela é aminha cara!"? Ainda alimento a vontade de ser pai, independente de continuar ou não junto com a pessoa. Não se trata de antecipação ou de descrença na monogamia. Acredito no contrato do amor, quando verdadeiro. Quando não, torna-se brincadeira de casinha, igual a época em que eu brincava no playground com as barracas de pano da Turma da Mônica. Vejo os shownarlismos televisivos sobre o caso da menina Isabella; uma famosa revista eletrônica dominical editando a reportagem investigativa, remetendo a um também famoso seriado americano, "jornais-portais" estampando notícias marrons por dias e semanas sem atualisar a página, apenas com o cunho da bosta sensacionalista. Todo mundo reclama dos odores dos outros, menos dos seus próprios. Estou cada vez mais descrente da existência que aprendi a ter sobre Deus. A verdade do mundo só interessa aos burros. Hoje, com vinte e oito anos, sou uma espécie de ser social, tenho uma espécie de dever, de me portar como um profissional contribuinte da tragédia social. Me pergunto o que Shakespeare, Beckett, Nelson Rodrigues, Cazuza dentre outros malditos criariam em suas grutas undergrounds. Não vejo mais diferença entre positivo e negativo. O bem, a felicidade, o segredo e suas mensagens de auto-ajuda têm trazido mais pestes competitivas do que glórias positivistas. Agora me lembrei de Neo (Matrix). Parece que a energia que a tela do monitor suga arrasta consigo todo o nosso potencial, nos tornando escravos do sexo, das personalidades de alter-ego, e outras patologias. Quem me chama de louco merece mesmo este mundo. Porque se tudo está tão normal, tão aceito, acho que precisarei ser admitido nos cargos e comissões com o atestado de esquizofrênico. Não há realidade como a nossa! A nossa caixola cerebral é o lugar mais sagrado que temos! Não deixem que as corporações roubem vossos nomes, em prol de marcas prontas: Eduardo Raimundo, ofício: operador de construção; Sheila Araújo da Costa, ofício: costureira, etc. Abaixo a subiserviência! Como o Mr. V (do filme V, de Vingança) , eu quero ser o ator multiuso, a mãe, o pai, a tia, a puta, o cachorro, o porteiro, o filho, o padeiro, a música, o tédio, os estados tempestivos; sem provar nada pra ninguém, sem criar discursos vitimizados. As pessoas que se fazem de vítima são menos do que nada. Se valem nada, não valem nem isso! Não quero mudar o mundo. Quero que respeitem a tipologia da minha assinatura! Seria até melhor que no lugar do mouse (ou rato!) - poderiam ter outros drivers em forma de animais, uma aranha mais macia, uma esponja, uma água-viva! - escrevêssemos com um lápis óptico. Seríamos mais respeitados. Até no tempo das máquinas de datilografar era possível passar uma esferográfica pra completar uma letra apagada. Agora até as letra são iguais! Que cú fedido! Como se vê em Édipo: quando a peste assola a cidade, não há mais nada a ser feito. Só esperar a escatologia. Zeus está na porta do seu travesseiro, e não na do céu. Lá na porta do céu só passa aviões congestionados. Encontre seu espaço, não roube o dos outros. É feio. Muito feio!
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