Talvez esta seja uma das epifanias mais importantes que eu esteja escrevendo neste momento. Estou num momento umbilical, num momento meu, muito, mas muito particular que só interessa a mim. Os meus segredos, as minhas particularidades, a minha volta ao tempo, a minha história, o meu amor pela minha pequena e grande família. Estou, exatamente agora, muito sensível ao que eu e Bruno discutimos hoje sobre o Simão, meu personagem da peça A Farsa da Boa Preguiça. Entrei em contato, das treze horas pra cá, com a minha veia " dôrense", minhas raízes nordestinas, meu pé chato, minha cara cosmopolita, minha fragmentação carioca, minhas descobertas, nostalgias e desejos mais profundos pela vida. Como é fácil ser criança, como é idiota ser adolescente e como é perigoso ser adulto. Estou, como Dorothy, em O Mágico de Oz, buscando "o retorno pra casa", o caminho de volta. O ciclo cênico está se fechando, meu enclausuramento sentimental (me permiti pouco a conhecer novas pessoas, a ter novas amizades; após o término do meu namoro com Smell, há três anos, não construí nenhum relacionamento sério com ninguém, talvez por reclusão, talvez por eu levar as coisas exatamente a sério, por abandono de mim mesmo; tive loucas e importantes experiências nesta cidade, descartei pessoas, acolhi outras) vem acompanhado de uma nova afronta trabalhista, em busca de um mercado que me acolha, um Eduardo misturado com o Raimundo, com o Oliva, com o Júnior... . Estou com muita saudade de tudo o que, inconscientemente, eu negava há um bom tempo: meu sangue nordestino. Minhas raízes já nasceram tortas, bifurcadas em duas cidades; numa a infância passageira, noutra a descoberta do outro lado do Eduardo, aquele lado do sobrenome tão evitado... Raimundo! Estou aqui, em busca do meu Simão, em busca do homem poeta, do homem trovador, tocador, declamador, apaixonado, em busca de mim mesmo. Tem coisas nossas, repletas de substâncias únicas e salutares, que nenhum livro responderá, nenhuma ciência provará, por a + b, por que se é assim assim assado. Lembro do meu estranhamento " pseudo-carioca" em relação ao sotaque de minha mãe, em plena cidade do Rio de Janeiro. Seu jeito puro e inocente de almoçar com a mão o feijão com arroz, lambuzado de farinha, com banana e carne-do-sol. Sua natividade, sua fibra feminina e masculina, sua beleza delicada de mulher forte. Minha irmã, assustada com infernos vividos desde pequena e incompreendidos por mim, mais pequeno ainda, que por um bom tempo questionou no seu egoísmo o jeito calado e reservado daquela garota. Papai, nos raros momentos em que estava em casa no nosso prédio, na Ilha, mostrava-nos o som novo que trouxera de um país oriental. Só tinha toca-fitas. Na FM achei engraçado, com apenas seis anos de idade, uma tal música que falava de um tal Eduardo e de uma tal Mônica. E eu, no meu mundo, perguntava quem era aquele cantor que escrevera uma música sobre a minha família. Eu me achava o guri nesse tempo (risos). Foi nas festas de São João que eu descobri o meu encantamento por personagens, pessoas, pelo Gonzagão. Numa das apresentações eu não tinha gibão de couro, e lembro, ainda nessa época, que eu tinha uma mania feia de pegar roupa dos outros. Na tábua de passar, na casa da Tia Lêda, puxei com tudo uma jaqueta jeans, tamanho G. E lá estava eu, um menino branquelo e de olhos assustados, fazendo xaxado. Eu confundia papai com o apresentador Léo Batista, do Globo Esporte, sempre que ele aparecia na televisão. Tem pessoas que não gostam de História, nem de suas próprias. Eu estou reaprendendo a amar. E acredito que esta é a função de todo grande trabalho, a função de construir e desconstruir o ator. Por dentro e por fora. Aracaju-Rio-Aracaju. Qual mão estender para socorrer? Qual mão largar para deixar cair? Nenhuma das duas opções. Estou me entregando, entregando meu coração ao Eduardo que não é "perfeito", não é "coerente", não é "pronto", não é " linear". Este Eduardo erra, não tem medo, tem facão no bolso pra cortar olho gordo, tem lado primitivo acobertado por uma elegância inglesa; ele é quebra-pedra, é valente, grita pra lutar e pra pedir socorro. Por dentro uma personalidade minha. Por fora, uma impressão sua!Obrigado, Harildo, por este presente!
Obrigado Bruno, por aceitar, como reles "convidado" (risos), o nosso convite.
Obrigado a São João, seus santos católicos e suas comidas de quentão!
Obrigado Suassuna, prometo ser fiel, em todas as alegrias e tristezas do Simão.
Obrigado Suassuna, prometo ser fiel, em todas as alegrias e tristezas do Simão.
Tô feliz de cabo a rabo!
PS: Não é sensacionalismo. Agora eu choro, aqui, aí e em todos os lugares.
Com muita sinceridade.
1 comment:
Muita coragem tem um homem que respeita e ama sau história. Muita criatividade tem o mesmo homem que faz dela um belo livro, um belo conto.
Lindo, Du.
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